Do menor jornal do mundo à coroação de Milton Nascimento: 10 curiosidades que contam a história de 114 anos de Divinópolis

Divinópolis MG Anna Lúcia Silva/g1 Muito além da moda e do crescimento urbano, Divinópolis guarda histórias que ajudam a explicar a identidade cultural da ...

Do menor jornal do mundo à coroação de Milton Nascimento: 10 curiosidades que contam a história de 114 anos de Divinópolis
Do menor jornal do mundo à coroação de Milton Nascimento: 10 curiosidades que contam a história de 114 anos de Divinópolis (Foto: Reprodução)

Divinópolis MG Anna Lúcia Silva/g1 Muito além da moda e do crescimento urbano, Divinópolis guarda histórias que ajudam a explicar a identidade cultural da cidade. Algumas delas estão presentes no cotidiano dos moradores, outras atravessaram décadas e ganharam repercussão nacional e até internacional. Tem bairro famoso que oficialmente não se chama como todo mundo o conhece, estabelecimento tradicional que nunca vendeu batatas, festas que paravam ruas inteiras e até um jornal tão pequeno que entrou para o Guinness Book. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Centro-Oeste no WhatsApp No aniversário de 114 anos Divinópolis, o g1 reuniu curiosidades que ajudam a contar parte da memória afetiva do município. Entre elas estão a coroação de Milton Nascimento como Rei do Congo diante de milhares de pessoas, a importância decisiva da ferrovia no crescimento da cidade e a história do “Vossa Senhoria”, reconhecido como o menor jornal impresso do mundo. Entre tradição, música, esporte, cultura popular e histórias que sobreviveram ao tempo, Divinópolis mostra que seu passado vai muito além dos livros: ele segue vivo nas ruas, nos bairros, nas festas e na memória dos moradores. 1. O nome oficial do bairro Sidil não é Sidil Bairro Vila Belo Horizonte fica na região conhecida como Sidil Anna Lúcia Silva/g1 Um dos bairros mais conhecidos de Divinópolis carrega um nome que, oficialmente, não existe nos registros urbanos. O tradicional Sidil, referência para milhares de moradores, na verdade nasceu como Vila Santo Antônio. O nome “Sidil” acabou popularizado por influência da Sociedade Industrial Divinopolitana Ltda. (Sidil), que segundo o historiador Elizeu Ferreira, foi instalada na região para venda de loteamentos e desde então, marcou a identidade do bairro ao longo das décadas. Com o passar dos anos, o nome popular falou mais alto do que o oficial. Hoje, praticamente toda a cidade se refere ao local apenas como Sidil. "É uma curiosidade que muita gente desconhece. Aquela região tem vários outros bairros como Capitão Silva, Vila Belo Horizonte, mas Sidil mesmo não aparece nos registros", disse o historiador. 2. A Casa da Batata não vende batatas Casa da Batata em Divinópolis Anna Lúcia Silva/g1 Outro clássico divinopolitano que intriga moradores e visitantes é a famosa Casa da Batata no bairro Santa Luzia. Apesar do nome, o tradicional estabelecimento não tem a batata como principal produto vendido no local. Os produtos vendidos na casa da Batata, estabelecimento com cerca de 50 anos de existência, são produtos alimentícios como cerais e grãos ensacados, como milho e feijão. O apelido surgiu décadas atrás por causa da atividade inicial ligada ao armazenamento e comercialização do alimento que até era vendido no local, mas depois nunca mais passou a fazer parte das gondolas do comércio. Com o tempo, o espaço mudou de perfil, virou referência e manteve o nome que atravessou gerações, tornando-se um dos pontos mais conhecidos da cidade. 3 .Uma das maiores pistas públicas de skate de MG Pista de skate Parque da Ilha Divinópolis Prefeito de Divinópolis/Divulgação Divinópolis também se destaca no esporte. A cidade abriga uma das maiores pistas públicas de skate de Minas Gerais, localizada no Parque da Ilha. O espaço passou por uma grande reforma em 2012 quando o espaço foi ampliado para cerca de 1,5 mil metros quadrados, superando estruturas tradicionais do estado e se tornando referência para atletas da região. A revitalização recebeu investimento de aproximadamente R$ 100 mil e contou com participação direta da Associação Divinopolitana de Skate, que acompanhou o projeto para adaptar a pista às necessidades dos praticantes. Com obstáculos modernos e estrutura ampliada, o local passou a receber skatistas de diferentes cidades mineiras. Além de incentivar o esporte e a convivência entre os jovens, a pista ajudou a fortalecer a cultura do skate em Divinópolis. O espaço também abriu caminho para a realização de campeonatos e etapas de competições de nível estadual e nacional no município. 4 . Ferrovia decisiva para o crescimento da cidade Linha férrea em Divinópolis Anna Lúcia Silva/g1 Se hoje Divinópolis é considerada um dos principais municípios do Centro-Oeste de Minas, muito disso passa pelos trilhos da ferrovia. No fim do século XIX e início do século XX, o transporte ferroviário foi essencial para o desenvolvimento econômico e populacional da cidade. A chegada da estrada de ferro transformou Divinópolis em ponto estratégico de circulação de pessoas e mercadorias. Impulsionou o comércio, atraiu trabalhadores e contribuiu diretamente para a expansão urbana. Para o historiador Welber Tonhá, o trem simbolizava muito mais do que um meio de transporte. “O trem não era apenas uma máquina colossal de ferro; era o próprio pulsar de um futuro implacável que se desenhava sobre dormentes de madeira. À medida que os trilhos se estendiam como veias metálicas pela terra vermelha, a pacata Vila Divinópolis começou a despertar”, afirmou. Welber destaca ainda que cada composição que chegava à cidade trazia não apenas cargas e passageiros, mas também desenvolvimento e transformação social. “Cada vagão que despontava trazia consigo o peso do carvão, das especiarias e também o progresso, então definitivamente, a ferrovia foi decisiva para o crescimento da cidade”, completou. Por décadas, o apito dos trens fez parte da rotina dos moradores e ajudou a moldar a identidade ferroviária do município. 5 . As gincanas da Savassi mobilizavam multidões Antes da era das redes sociais e dos eventos digitais, as tradicionais gincanas da região da Savassi movimentavam Divinópolis e reuniam centenas de jovens em disputas que ficaram marcadas na memória da cidade. A ideia das gincanas partiu da jornalista Sônia Terra e do marido, Coronel Faria, quando ambos estavam à frente do Jornal Agora, o único jornal impresso que circula até hoje em Divinópolis. Segundo Sônia, a inspiração veio de uma competição estadual chamada “Mineiros Frente a Frente”, que fazia sucesso em Minas Gerais na época. “O Coronel Faria se inspirou nessa disputa e falou: ‘Vamos criar uma em Divinópolis’. Então nasceram as gincanas, que foram um sucesso”, relembrou. A organização começou com o convite a jovens e lideranças conhecidas da cidade para criarem as equipes. Rapidamente, grupos como Balaio de Gato e Funil se tornaram símbolos da disputa, protagonizando provas, desfiles, brincadeiras e desafios culturais que tomavam conta das ruas da Savassi entre as décadas de 1980 e 1990. Mas, segundo Sônia Terra, o evento ia muito além da competição. “Além da disputa, tinha também o cunho social. Não era só brigar pelo título. As equipes arrecadavam roupas, leite e donativos que eram destinados às instituições de caridade. Essa parte foi um sucesso absurdo”, contou. Ela também lembra que todas as provas eram criadas exclusivamente pelo casal, em segredo absoluto, para evitar qualquer suspeita de favorecimento. “A criação das disputas era só nossa. Ninguém mais participava porque tínhamos medo que vazasse. Nunca teve nenhuma prova vazada. A gente fazia tudo com muito carinho e pensando no retorno que aquilo teria para a cidade”, afirmou. As gincanas mobilizavam patrocinadores importantes da época, como Coca-Cola, Kaiser e empresas do setor industrial, e transformavam a rotina de Divinópolis. Uma das lembranças mais marcantes, segundo Sônia, foi a participação do famoso “Baixinho da Kaiser”, garoto-propaganda da cervejaria na época, que virou alvo de uma das provas da competição. “Marcamos época e tenho muito orgulho de ter participado disso tudo. A Savassinha ficava em polvorosa até altas horas da noite. A cidade realmente se movimentava. Foi um período muito bonito e que deixou saudade”, finalizou. 6. O menor jornal do mundo foi produzido em Divinópolis Vossa Senhoria Divinópolis Leida Reis/Arquivo Pessoal Entre as histórias mais curiosas de Divinópolis está a do “Vossa Senhoria”, reconhecido pelo Guinness World Records como o menor jornal impresso do mundo. Pequeno no tamanho, mas gigante na repercussão, o semanário ajudou a projetar o nome da cidade internacionalmente e se tornou um dos símbolos mais inusitados da história divinopolitana. Fundado em 1935 pelo jornalista Leônidas Schwindt, o jornal chegou a Divinópolis em 1956 e ganhou notoriedade mundial anos depois. Com apenas 3,5 centímetros de altura por 2,5 centímetros de largura, o impresso cabia na palma da mão, mas trazia notícias, críticas políticas e informações variadas. Após a morte do fundador, os filhos Lúcio e Dolores Schwindt deram continuidade à publicação na cidade. Em 2000, o “Vossa Senhoria” entrou oficialmente para o Guinness Book como o menor jornal do planeta. A última edição foi publicada em março de 2018, encerrando uma trajetória de mais de oito décadas. 7 . Milton Nascimento foi coroado Rei do Congo Memória TV Integração – Milton Nascimento é coroado como Rei do Congo, em Divinópolis Divinópolis também entrou para a história da música e da cultura popular brasileira ao coroar Milton Nascimento como Rei do Congo, em maio de 1998. O momento reuniu milhares de pessoas e se transformou em um dos episódios culturais mais marcantes já vividos na cidade. Na ocasião, Milton chegou de trem à antiga estação ferroviária e foi recebido por guardas, reis, rainhas e princesas do Congado. Pelas ruas da cidade, o cortejo seguiu ao som dos tambores mineiros em uma grande celebração da tradição afro-brasileira. A coroação foi conduzida por João Bucci, então rei da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário há mais de 50 anos. Diante de mais de 10 mil pessoas, o artista recebeu homenagens e respondeu da forma que o Brasil inteiro conhece: cantando. Anos depois, Milton relembrou o episódio com carinho e afirmou que aquele foi “uma das coisas mais bonitas” que viveu. O momento reforçou a ligação de Divinópolis com o Congado, tradição centenária que segue viva na cidade. 8. O prédio do Teatro Gravatá já abrigou a primeira usina de álcool a motor da América Latina Teatro Municipal Usina Gravatá Anna Lúcia Silva/G1 Muito antes de se transformar em um dos principais espaços culturais de Divinópolis, o prédio do atual Teatro Gravatá teve papel pioneiro na história da indústria brasileira. O local abrigou, na década de 1930, a Usina Gravatá, considerada a primeira usina de álcool a motor da América Latina. Inaugurada em 1932, a estrutura foi criada em um período em que o Brasil começava a buscar alternativas energéticas para reduzir a dependência dos combustíveis importados. A produção de álcool combustível a partir da cana-de-açúcar colocava Divinópolis em posição de destaque em um projeto inovador para a época, décadas antes do país consolidar programas nacionais voltados ao etanol. A usina produzia álcool destinado ao abastecimento de motores e veículos, em uma experiência considerada ousada e moderna para os padrões daquele período. Além do impacto econômico, o empreendimento ajudou a movimentar a região, gerando empregos e fortalecendo o setor industrial do município. Para o historiador Welber Tonhá, o surgimento da usina representava mais do que avanço tecnológico: simbolizava a chegada de um novo tempo. “Em idos de 1932, quando os ventos da modernidade começavam a sussurrar suas promessas sobre o vasto solo latino-americano, a terra úmida e fértil testemunhou o erguer de uma revolução com cheiro de cana e de futuro. Nascia a Usina Gravatá, imponente e visionária”, afirmou. Welber destaca ainda o caráter inovador do empreendimento para a época. “Longe de ser apenas mais um conjunto de engrenagens a moer a rotina de seus dias sob o sol inclemente, ela se tornou o caldeirão de uma alquimia inédita, onde a doçura da seiva verde era transmutada, em meio a vapor e fornalhas, na força bruta capaz de fazer girar a roda do amanhã”, completou. Décadas depois, o espaço foi transformado no Teatro Gravatá, preservando parte da memória de um dos capítulos mais curiosos e pioneiros da história de Divinópolis. 9. Candidés nunca foi uma tribo indígena Em Divinópolis, o nome Candidés batiza diversos espaços, como a Praça Candidés, localizada antes da ponte do Rio Itapecerica Reprodução/Tv Integração Muita gente acredita que o nome Candidés, tradicional bairro de Divinópolis, tenha origem indígena. Mas, segundo historiadores, a história é bem diferente: Candidés nunca foi o nome de uma tribo. De acordo com o historiador Welber Tonhá, a origem do nome está ligada a Manoel Fernandes Teixeira, um paulista que teria fugido da Guerra dos Emboabas, conflito ocorrido no início do século XVIII entre paulistas e portugueses pelo controle das áreas de mineração em Minas Gerais. Segundo Welber, ao escapar da guerra, Manoel Fernandes Teixeira se embrenhou na mata da região para fugir dos confrontos e acabou vivendo isolado no sertão. “Ele era um homem branco, de pele muito clara, e destoava bastante dos habitantes da região naquela época. Por causa da pele ‘cândida’, acabou recebendo o apelido de Candidé”, explicou o historiador. Com o passar do tempo, o nome acabou associado ao local onde ele viveu e, posteriormente, gerou a crença popular de que existiria uma tribo indígena chamada Candidés. “O grande equívoco histórico foi transformar a figura de um único homem em uma suposta nação indígena que nunca existiu”, destacou Welber Tonhá. A história atravessou gerações e se tornou uma das curiosidades mais conhecidas sobre as origens de Divinópolis e de suas comunidades. 10. Primeiro terminal rodoviário funcionava em frente ao Hotel Iris Ponto de ônibus com as jardineiras na esquina do Iris Hotel, antes da construção da primeira rodoviária, em 1962 Site Colorindo a História de Divinópolis/Vilton Gonçalves Teixeira Muito antes da construção da atual rodoviária, o embarque e desembarque de passageiros em Divinópolis acontecia de forma bem mais simples: em frente ao tradicional Hotel Iris, ativo até hoje na avenida 1º de Junho. Segundo o historiador Welber Tonhá, foi em 1925 que a cidade começou a vivenciar os primeiros passos do transporte coletivo rodoviário, com a circulação da chamada “Jardineira de Halin Souki”, um dos primeiros veículos usados para o transporte de passageiros na região. “O surgimento da jardineira marcou a chegada do transporte público rodoviário em Divinópolis e ajudou a aproximar pessoas e comunidades em uma época em que as viagens ainda eram difíceis”, explicou o historiador. O ponto de parada da jardineira funcionava justamente em frente ao Hotel Iris, que acabou se tornando o primeiro terminal rodoviário informal da cidade. O local virou referência para partidas, chegadas e encontros de viajantes durante décadas. Welber destaca que o espaço se transformou em um importante ponto de movimentação da cidade. “Ali aconteciam despedidas, reencontros e a circulação de pessoas que ajudavam a movimentar o comércio e a vida urbana de Divinópolis”, afirmou. O modelo permaneceu ativo até o crescimento urbano e a modernização do transporte exigirem estruturas mais amplas, já próximo da década de 1960. VÍDEOS: veja tudo sobre o Centro-Oeste de Minas