Bebê é tratado ainda na barriga da mãe contra doença rara e nasce saudável em Uberaba

Bebê nasce em Uberaba após tratamento intrauterino inédito no Brasil Ainda dentro da barriga da mãe, durante a 14ª semana de gestação, o bebê Bento Vasc...

Bebê é tratado ainda na barriga da mãe contra doença rara e nasce saudável em Uberaba
Bebê é tratado ainda na barriga da mãe contra doença rara e nasce saudável em Uberaba (Foto: Reprodução)

Bebê nasce em Uberaba após tratamento intrauterino inédito no Brasil Ainda dentro da barriga da mãe, durante a 14ª semana de gestação, o bebê Bento Vasconcelos Dutra começou a ser tratado contra uma doença rara que pode causar insuficiência hepática grave e levar à morte do feto ou do recém-nascido. O tratamento foi feito de forma indireta, por meio de infusões semanais de imunoglobulina aplicadas na mãe, em Uberaba, após a família perder uma filha para a mesma condição, a Doença Hepática Aloimune Gestacional (GALD). 🔎 GALD é a sigla para doença hepática aloimune gestacional, uma doença rara e grave que afeta fetos e recém-nascidos. A condição acontece quando anticorpos da mãe atravessam a placenta e atacam o fígado do bebê ainda durante a gestação, causando lesões hepáticas severas, causando complicações na gravidez e insuficiência hepática no recém-nascido, com alto risco de morte se não houver tratamento rápido. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Triângulo no WhatsApp A estratégia médica tinha como objetivo impedir que os anticorpos maternos voltassem a atacar o fígado do bebê durante a gravidez. Após meses de acompanhamento com especialistas de Uberaba e São Paulo, Bento nasceu saudável, resultado que a família atribui ao tratamento iniciado ainda no útero. Casal havia perdido bebê para mesma doença Por trás do caso está a história dos médicos Isabela Vasconcelos, pediatra, e Raul Dutra, oncologista. O casal decidiu compartilhar a experiência da perda da filha Betina para a doença de GALD. Após o luto, eles passaram a conscientizar outras famílias sobre a importância do diagnóstico e do tratamento precoces. A gravidez de Betina transcorreu normalmente até o sétimo mês, quando exames identificaram uma restrição no crescimento fetal sem causa aparente. Pouco tempo depois, houve redução do líquido amniótico, o que levou a um parto prematuro, com 33 semanas de gestação. Ao nascer, Betina pesava apenas 1,5 quilo e precisou ser internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal. Os primeiros exames apontaram baixa contagem de plaquetas e alterações na coagulação sanguínea. "Infelizmente, não tem diagnóstico na gestação. Então, assim, são sinais subjetivos. A Betina primeiro parou de ganhar peso, depois começou com uma restrição de crescimento, depois o meu líquido amniótico reduziu, até a gente ter um anidrâmnio [ausência de líquido amniótico] . Ficamos totalmente sem líquido amniótico. Ela nasceu muito pequenininha, restrita, mas não sabia o motivo", disse Isabela Vasconcelos ao falar sobre a doença. A partir dali, os pais começaram a buscar um diagnóstico, por meio de exames, transfusões e uso de medicamentos e procedimentos intensivos. O descobrimento da doença aconteceu após o contato da mãe com um especialista em fígado durante a internação da filha. A bebê faleceu dias após o nascimento, antes de poder realizar o transplante de fígado, em decorrência de complicações graves, mesmo após o início do tratamento com imunoglobulina. O bebê Bento após o parto Reprodução/Rede Sociais Como foi o nascimento do Bento Após a confirmação do diagnóstico da doença de GALD na perda de Betina, os médicos Isabela e Raul sabiam que uma nova gravidez apresentava risco elevado em uma outra possível gestação. Foi então que, a partir da 14ª semana de gestação, a mãe iniciou tratamento com infusões semanais de imunoglobulina humana intravenosa, tratamento destinado a impedir que os anticorpos maternos voltassem a atacar o fígado do bebê. "É uma doença que apresenta uma alta taxa de recorrência, ou seja, a chance de uma gestante com síndrome de GALD apresentar um novo caso chega na casa dos 90% a 95%", diz Alberto Peixoto, obstetra especialista em medicina fetal, ao comentar sobre possível caso da doença ocorrer novamente. A gravidez de Bento foi acompanhada por médicos especialistas de Uberaba e também da capital de São Paulo, desde o início até que o Bento nascesse. O nascimento saudável do bebê é o primeiro caso registrado no Brasil para o tratamento intrauterino preventivo contra a GALD, de acordo com a família. "A gente está vivendo um milagre, estamos aproveitando todo o caos. Então, desse início de que não tem rotina, com a outra pequenininha em casa, a gente aproveita cada minuto do caos e as banalidades, as trivialidades do dia a dia que às vezes passam despercebidas para os outros, para a gente que teve um momento atípico ali, uma maternidade atípica, então a gente curte cada momento, cada minuto, com certeza nosso milagre", contou Isabela. O g1 procurou o Ministério da Saúde para saber se há monitoramento nacional da doença e se já existem registros de outros tratamentos intrauterinos para GALD no país, mas não recebeu resposta até a última atualização desta reportagem. LEIA TAMBÉM: Menino com primeiro caso de doença genética rara identificada no Brasil retorna ao país curado após quatro meses nos EUA Única brasileira em pesquisa na Inglaterra ajuda a desenvolver método pioneiro para recuperação da visão Pais de menino com doença genética rara inédita no Brasil comemoram cura após tratamento nos EUA: ‘vencemos’ Instituto Betina Depois de perderem a filha para a doença de GALD, os pais, Isabela e Raul, criaram o Instituto Betina, com o objetivo de acolher famílias em situação de vulnerabilidade social e ampliar a conscientização sobre doenças raras, em Uberaba e na região. Atualmente, o instituto realiza, arrecada e doa itens de higiene pessoal, enxovais para bebês, cestas básicas, roupas e calçados, destinando as doações a famílias em situação de vulnerabilidade, além de lanches para pacientes, acompanhantes e funcionários. "Depois da Betina, a gente teve uma vontade muito grande de ajudar o próximo, valorizar a vida de outra maneira, da forma profunda que a gente deveria seguir a vida, que é ajudando ao próximo, fazendo caridade", finalizou a médica. Doença de GALD é a primeira o Brasil Rede Social/Reprodução VÍDEOS: veja tudo sobre o Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste de Minas